terça-feira, 17 de maio de 2011

Guitarra Baiana - Reivindicações à fama


Guitarra baiana é um instrumento elétrico, de quatro ou cinco cordas, criado originalmente para execução em trio elétrico no Carnaval da Bahia.

A dupla "Dodô e Osmar" (Adolfo Dodô Nascimento e Osmar Álvares Macêdo), ambos de Salvador, teve a idéia de construir um novo instrumento a partir de uma apresentação, na capital baiana, do músico Benedito Chaves - que utilizava um captador acoplado a um violão tradicional de caixa acústica oca equipada com um captador.

Dodô, técnico em eletrônica, junto ao amigo, fez vários testes com madeira e posicionando o amplificador sob as cordas, conseguiu evitar a microfonia que verificaram ocorrer na apresentação que tinham assistidos.

O protótipo criado por Dodô e Osmar no início da década de 1940 ficou conhecido como pau elétrico ou cavaquinho elétrico.

O fato de que o primeiro protótipo da guitarra baiana, conhecido como pau elétrico ou cavaquinho elétrico foi concebido e construído em Salvador, Bahia, na década de 1940, dentro de um intervalo de tempo em que também surgiram vários ancestrais importantes da guitarra elétrica nos Estados Unidos, como o lendário Log Guitar de Les Paul de 1941 e as guitarras havaianas de Fender e Kauffman de 1944/45, continua alimentando 'boatos' acerca de que a guitarra elétrica moderna pode ter sido, ou foi, inventada no Brasil. Entre as manifestações mais conhecidas dessa “reivindicação” consta a letra da música Viva Dodô e Osmar de Moraes Moreira & Zé Américo, um sucesso nos trios elétricos do Carnaval da Bahia dos anos 70.

Viva Dodô e Osmar
Moraes Moreira & Zé Américo

Dodô, Dodô
Dodô, Dodô
Antes do Gringo,
a guitarra ele inventou
Osmar, Osmar
Osmar, Osmar
O carnaval ele veio triletrizou

Logo depois da guerra
Na minha terra Bahia
Dois baianos sem compromisso
Descobriram que o cepo maciço
Evitava o fenômeno da microfonia
E assim, com o nome de “pau elétrico”
Nascia um dia, a guitarra na Bahia,
Bahia, Bahia

A música de Dorival Caymmi, aquela que diz que em Salvador existe uma igreja para cada dia do ano, cuja letra acabou sendo levada a sério e divulgada pelos guias de turismo da cidade, nos serve com um exemplo do poder da folclore e da poesia momesca.

No caso do pau elétrico, o "problema" com uma tal retórica seria que ela pode chegar a distrair o nosso olhar de outras reivindicações a fama, válidas por sinal, da guitarra baiana, e também a distorcer a nossa percepção dos grandes comprimentos culturais de Dodô Nascimento e Osmar Macêdo: Pois, o lance principal não é se Osmar e Dodô inventaram a guitarra elétrica “antes do gringo” ou não, é que eles o fizeram sem ele. Desenvolveram um novo instrumento musical inteiramente funcional, por conta própria e com recursos caseiros, inventarem um novo estilo musical para se tocar nele, e criaram um palco móvel, equipado com altofalantes e um gerador, para se apresentar.

Dessa forma, criaram uma singularidade na musica popular brasileira, pois tudo isso já se encontrava consolidado e divulgado antes que os primeiros modelos de guitarras elétricas importadas chegassem às lojas brasileiras, e antes do Rock'n Roll (como gênero próprio) tomou forma nos Estados Unidos.

Isso dito, podemos revisar as outras reivindicações a fama da guitarra baiana, passo à passo e mais detalhadamente, até abordar uma que é bem interessante e normalmente não vem sendo citada.

Quanto à data da chegada no Brasil da guitarra elétrica como tal, com caixa acústica oca ou não, ela não é clara, e as informações ao respeito variam muito. Entre os candidatos mais remotos temos o caso de Henrique Brito (1906-1935), conhecido compositor e guitarrista (com João de Barro e Noel Rosa, entre outros) da década de 1920, e membro da banda do saxofonista Romeu Silva, o 'Olímpico Brasileiro' que representou Brasil nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1932. Brito permaneceu na Califórnia quase um ano e retornou ao Rio de Janeiro em 1933 com um violão elétrico, alegando que o instrumento havia sido construído sob a sua orientação em San Francisco por um fabricante de guitarras que depois teria patenteado o mesmo.

Quanto ao uso de um "corpo maciço" como um método para combater o problema da microfonia ou “feedback”, reduzindo a câmara acústica do instrumento (ou até eliminando ela por completo, do jeito que resta apenas uma estreita “espinha dorsal”) remonta pelo menos ao ano 1923, no protótipo de uma viola elétrica, desenvolvido por Lloyd Allayre Loar, pela Gibson.

Este instrumento compartilha todas as características relevantes com o modelo acima à esquerda, um violino elétrico patenteado por Loar em 1933 (notar a ausência completa da caixa acústica). Loar, um aclamado especialista em construção de bandolins acústicos, deve ter tido os seus motivos, talvez relacionados à preservação de determinadas características sonoras, para não aplicar essa mesma abordagem nos bandolins e violões eletrificados que estava desenvolvendo na mesma época. Poucos anos depois, em 1941, Les Paul iria fazer justamente isso com o seu Log Guitar (extrema direita).

Os fabricantes de guitarras norte-americanos pré-1940 tinham, então, uma clara percepçõao tanto do problema da microfonia como também do seu remédio. Muitos dos primeiros modelos experimentais de instrumentos elétricos tinham corpos inteiramente sólidos, como o protótipo do Frying Pan de Rickenbacker & Beauchamp de 1931, cujo corpo de madeira maciça supostamente veio de uma cerca no pátio por trás da oficina.

Os experimentos conduzidos por Beauchamp na invenção do captador do Frying Pan, envolvendo o uso de uma única corda metálica prendida na bancada de trabalho, tiveram início já por volta de 1926.

O fato que muitos modelos de produção em massa do mesmo período, por sua vez, não teriam sido totalmente sólidos, se devia mais a considerações relacionadas a inconvenientes da época, como o custo dos materiais, técnicas de fabricação e peso final.

O modelo Bakelite Spanish da Electro String (Rickenbaker) de 1935 (acima, centro), por exemplo, tinha um design em plástico duro (bakelite) que eliminava a microfonia com sucesso, mas, embora nem sendo totalmente sólido, ficava ainda tão pesado que não podia ser tocado sem um suporte.

Por algum motivo não muito claro, os desenvolvedores de instrumentos norte-americanos deixaram de aplicar, até a década de 1950, o princípio do corpo sólido já em uso com as suas guitarras também aos seus bandolins elétricos. Assim, importantes “dinossauros” de bandolins elétricos anteriores as décadas de 40 e 50, como o modelo da Electro String (Rickenbacker) de 1931, o ViVitone de Loar patenteado em 1933, o protótipo da National Resophonic de 1934, assim como modelos pós-1935 da Gibson (EM), da National (Silvo) e da Vega, seguem todos um design tradicional e tem corpos ocos. (na foto, o interior de um lapsteel modelo EH-150, da Gibson, de 1939).

O primeiro bandolim elétrico de corpo sólido norte-americano só data de 1952, um modelo de 5 cordas simples (afinado Do-Sol-Re-La-Mi), construído por Paul Bigsby para o bandolinista Tiny Moore (que, por sua vez, antecipa a versão de 5 cordas da guitarra baiana idealizada por Armandinho Macêdo no início dos 1980).

O primeiro bandolim elétrico norte-americano de corpo sólido com 4 cordas duplas foi o modelo Electric Florentine (EM-200) da Gibson, de 1954 (à direita, preto), seguido pelo famoso Mandocaster (extrema direita) de 4 cordas simples (inspirado na guitarra elétrica e muito semelhmante à guitarra baiana) produzido a partir de 1956 pela Fender, e modelos de 4 e 5 cordas simples e 4 cordas duplas (5001, 5002, e 5003, respetivamente), construidas pela Rickenbacker entre 1958 e 1965.

Entre as vantagens de Dodô e Osmar em realizar um bandolim elétrico de corpo sólido, consta a despreocupação da dupla com a necessidade de preservar, no processo da amplificação, as carateristicas acústicas do bandolim. Enquanto os norte-americanos queriam ampliar o som das notas curtas de bandolins de cordas duplas, Dodô e Osmar procuravam, além de um som bem alto, notas compridas tocadas em cordas simples ("como um sino").

Dessa forma, chegaram a definir o conceito dos modelos norte-americanos "Tiny Moore" (Bigsby, 1952) e “Mandocaster” (Fender, 1956), ámbos com cordas simples, já na década de 40: o pau elétrico, o "cavaco-caster" de Salvador da Bahia.

Concluindo, como o modelo "Tiny Moore" de 52 e o "Mandocaster" de 56 pertencem á família dos bandolins (a despeito de possuírem cordas simples e não duplas) o mesmo aplica-se também para o pau elétrico. E isso faria, em ausência de exemplários norte-americanos das décadas de '30 e '40, do protótipo elaborado por Dodô e Osmar na década de 1940 o mais antigo bandolim elétrico de corpo sólido conhecido. Viva o "cavacocaster" de Dodô e Osmar!

365 Igrejas
Dorival Caymmi

365 igrejas a Bahia tem
Numa eu me batizei
Na segunda eu me crismei
Na terceira eu vou casar
com uma mulher que eu quero bem

Me nascer um bacuri
Vou me embora pra Bahia, vou.
Vou batizar no Bonfim
Mas se for me parecendo
Que os meninos vão nascendo
Por cada uma igreja que tem lá
Sou obrigado a comprar minha
Passagem pra voltar pra cá, não é....

Se depois que eu me casar
Me nascer um bacuri
Vou me embora pra Bahia, vou.
Vou batizar no Bonfim
Mas se for me parecendo
Que os meninos vão nascendo
Por cada uma igreja que tem lá
Sou obrigado a comprar minha
Passagem pra voltar pra cá, não é....

GOES (1982)

Enquanto a denominaçãodo protótipo dos anos 40, pau elétrico ou cavaquinho elétrico, se manteve até 1977, desenhos com forma de guitarra começaram a surgir já na década de 1950. Até o final dos anos 60 a guitarrinha serviu, exclusivamente, para tocar arranjos de temas instrumentais caranvalescas, principalmente frevos e choros, durante os dias de carnaval, quase sempre em uma carreta ou camião em movimento, transportando os músicos e amplificação, conhecido como Trio Elétrico. A primeira gravação em estúdio, realizado pelo Trio Tapajós, data de 1969.

A partir de meados dos 1960, o filho mais novo de Osmar Macêdo, Armandinho (*1953), familiarizado com o instrumento desde a sua tenra infância e então com um idade em torno de 10, começava a aparecer como solista de guitarra baiana durante o carnaval. Em pouco tempo, tornou-se o mestre indiscutível da criação do seu pai, expandindo amplamente os horizontes estilísticos da pequena guitarra, introduzindo elementos do Rock e do Jazz.

Em meados dos anos 1970, Armandinho, junto com a banda A Cor do Som, estabelece a guitarra baiana como um instrumento de Rock de nível nacional.

Em 1977, Armandinho começa a ultilizar o termo guitarra baiana como referência ao instrumento em capas de discos, batismo que permaneceu até hoje.

Até finais dos anos 1970, praticamente todas as guitarra baianas, inclusive aquelas utilizadas por bandas de trios 'concorrentes', foram construídos por Dodô Nascimento.

Após a sua morte em 1978, a fabricação do instrumento ficou dispersa. Numerosos modelos, tais como os feitos por Vitório Quitanilha, da casa de instrumentos Del Vecchio, Luizinho Dinamite, Jader, e Jorge de Itacaranha e introduziram variações no desenho do corpo original.

Em 1981, Armandinho, inspirado pelo violino elétrico do violinista Jean-Luc Ponty, acrescentou uma quinta corda (um baixo em Do) à guitarra baiana e em 1985, Luizinho Dinamite acrescentou um whammy bar. Os primeiros modelos de bandolim elétrico de corpo semi-sólido foram construídos por Jorge de Itacaranha em 1996.

FONTE


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