Mostrando postagens com marcador Adoniran Barbosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adoniran Barbosa. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de maio de 2016

Adoniran Dá Licença de Contar...


Adoniran Barbosa o sambista que ajudou a mostrar para o Brasil como era a São Paulo dos anos 30 a 60, que cantava em português errado, de propósito, uma maneira fidedigna de registrar a forma como as classes mais populares de São Paulo se expressavam.

A linguagem da poesia de Adoniran é caracterizada por um vocabulário com muita informalidade, mas não é uma informalidade qualquer, é uma variação linguística sociocultural marcada pelo regionalismo, linguajar popular e pelas gírias. Muitas vezes sem nenhum prestígio social, porém é este modo errôneo, inculto e popular de ser que configurou a maneira de estar... certa e agradar a todos! Foi com essa característica que Adoniran Barbosa manifestou sua arte, quebrando paradigmas e preconceitos linguísticos.

Adoniran Barbosa (1910-1982) foi um importante cantor, compositor, humorista e ator brasileiro. É considerado o patrono do samba paulista, onde as letras de suas canções deixaram peculiaridades que caracterizam sua genialidade linguística e remete-nos à percepção do linguajar da boemia noturna, ou melhor, a linguagem popular paulistana.
Leia mais aqui

Viveu com simplicidade e alegria. Nunca perdia o bom humor e seu amor por São Paulo, em especial pelo bairro do Bixiga (Bela Vista), que ele, sem dúvida, conseguiu retratar e cantar em muitas músicas suas. Por isso, Adoniran é considerado o compositor daqueles que nunca tiveram voz na grande metrópole.

A lembrança de Adoniran Barbosa não reside apenas em suas composições: temos em São Paulo o Museu Adoniran Barbosa, localizado na Rua XV de Novembro, 347; há, no Ibirapuera, um albergue para desportistas que leva seu nome; em Itaquera existe a Escola Adoniran Barbosa; no bairro do Bexiga, Adoniran Barbosa é uma rua famosa e na praça Don Orione há um busto do compositor; Adoniran Barbosa é também um bar e uma praça; no Jaçanã existe uma rua chamada "Trem das Onze"...


Adoniran deixou cerca de 90 letras inéditas que, graças a Juvenal Fernandes (um estudioso da MPB e amigo do poeta), foram musicadas por compositores do quilate de Zé Keti, Luiz Vieira, Tom Zé, Paulinho Nogueira, Mário Albanese e outros. Está previsto para o dia 10 de agosto o paulista Passoca (Antonio Vilalba) lançar o CD Passoca Canta Inéditas de Adoniran Barbosa.

As 14 inéditas de Adoniran foram zelosamente garimpadas entre as 40 já musicadas. Outra boa notícia é que entre os primeiros 25 CDs da série Ensaio (extraídos do programa de Fernando Faro da TV Cultura) está o de Adoniran em uma aparição de 1972.


A gravadora Kuarup nos brinda com um presente especial: um CD com a gravação de um show de Adoniran Barbosa realizado em março de 1979 no Ópera Cabaré (SP), três anos antes de sua morte. Além do valor histórico, o disco serve também para mostrar música menos conhecidas do compositor, como Uma Simples Margarida (Samba do Metrô), Já Fui uma Brasa e Rua dos Gusmões.


Fora isso, o paulista Barbosa nem se chamava Barbosa de verdade. Verdade seja dita, Adoniran adorava inventar, se reinventou tão bem que Rubinato sumiu, partiu para a maloca. Virou Adoniran de vez. Era tão multifacetado que criou mais de 16 personagens em seus programas de rádio na Record.

Em uma época onde TV era objeto decorativo na casa de gente rica, ele fazia a festa no rádio. Mas nem por isso desistiu de ser galã, chegou a trabalhar um tempo depois na TV, e como Mané Mole participou do longa O cangaceiro, que ganhou a Palma em Cannes em 1953, e foi exibido em mais de 80 países.

Sambista de acaso, sabia como tirar um sarro com a própria dor. Seu humor negro era apreciado por todos, seus sambas trágicos tinham um toque de ironia que marcou suas músicas, como na história da noiva que foi atropelada 20 dias antes do casamento e o noivo só guardou de recordação as meias e os sapatos – De lembranças guardo somente suas meias e seus sapatos/ Iracema, eu perdi o seu retrato.

Seu nome verdadeiro, quer dizer, seu nome era Adoniran Barbosa, mas isso foi o que ele escolheu, sua mãe foi do contra e escolheu um outro, João Rubinato, que significa Deus é Bondoso. Ah, e ele foi! Fez com que os paulistas, tidos como sem ginga e sem graça, ganhassem o melhor sambista do país. Não só isso, ele foi marmiteiro também, tirava de sua vida e sua história material para fazer seu samba – “A matemática da vida lhe dá o que a escola deixou de ensinar: uma lógica irrefutável. Se havia fome e, na marmita, oito bolinhos, dois lhe saciariam a fome e seis a dos clientes; se quatro, um a três; se dois, um a um.”

Sua voz rouca retratou São Paulo como nenhum outro artista conseguiu fazer. Mesmo tendo nascido em Valinhos, foi no Bexiga e no Brás que foi acolhido. Grande observador dos detalhes e fios soltos da vida, ele ria das suas amarguras e ia fundo em suas histórias. Era em suas noites no botequim, atrás de mesas de bar e filosofias tiradas do fundo de copos sujos em cantos do Brás, que ele fez sua história como compositor.

Foram as mesas, ladeiras e o povo que o fez ser quem foi e quem ainda é pelo que deixou. Suas tragédias íntimas e épicos tirados das sarjetas e malocas da cidade fizeram dele um grande contador de histórias. Quando São Paulo está embaixo d’agua por conta dos alagamentos, quem entenderia melhor a dor do paulistano do que ele, que falava do que entendia, do que vivia: Não reclama/ porque o temporal/ destruiu teu barracão/ Não reclama/ güenta a mão, João/ Com o Cebídi aconteceu coisa pior/ Não reclama/ Pois a chuva só levou a tua cama. Era só o que João tinha. Já a casa do Cebídi tava completa e foi toda levada pela enxurrada morro abaixo. Logo, João não tem tanto motivo pra reclamar da sorte.

Adoniran sabia como era difícil para São Paulo ser grande, entendia a dor de ser arranha-céu e de ser barracão. Sampa enfim pode ser consolada através de suas letras. Ele fez a década de 50 tremer, e olha que nem era um dos tremendões. Todos se renderam aos olhos pesados e bigode galante que formavam o rosto boêmio do sambista. Quem não se renderia, até eu daria mole, se ele me desse uma aliança feita com a corda mi do seu cavaquinho – foi o que ele fez na famosa “Prova de carinho”.

Os intelectuais o abraçaram, todos os nerds e universitários de plantão também, mas o povo para quem ele realmente cantava e dedicou a vida, esse se esqueceu dele. No fim da vida, não era tocado em rádios populares e o mercado não dava bola.

Morreu pobre, como quase todo sambista bom morre. Lançou 3 LPs em 40 anos de carreira, tinha fãs de grande nome em seu encalço, como Elis Regina. Exatos 28 anos atrás, o mundo perdeu Rubinato, quer dizer, Adoniran, Charutinho, enfim, ele podia ser quem quisesse, ele se dava esse direito. Parada cardíaca. Uma parada para ele foi o bastante, mas espero que tenha sido de barriga cheia. Só tenho a filosofia/ Que me dá consolação/ Com a barriga assim vazia/ Sei que morrerei/ No necrotério acabaria/ Mas não será de indigestão.

Adoniran não precisa de artigos para explicá-lo, ele mesmo sabia fazer isso, e fazia melhor do que qualquer Barbosa – Eu sou de humilde contato/ Tímido, nem sou loquaz/ Tenho espontâneo relato/ Do meu ego e o que me apraz/ Sou como sou não pedi.

Para quem fazia piada com a Jovem Guarda, o que me restou como Barbosa foi dar esse leve sopro – Porque com eles canta a voz do povo/ E eu que já fui uma brasa/ Se assoprarem posso acender de novo.

Adoniran Barbosa retratou a relação entre a cultura popular e moderna o Compositor abriu espaço para setores marginalizados e desprezados pela história oficial do Brasil

A obra de Adoniran Barbosa é densa, profunda e fascina pesquisadores, o que pode ser comprovado na extensa bibliografia dedicada ao compositor paulista. O livro Adoniran Barbosa, o poeta da cidade(Ateliê Editorial), do historiador Francisco Rocha, por exemplo, vale-se das canções para pensar o processo de modernização do Brasil, o lugar da cultura popular nesse contexto, a urbanização e o crescimento de São Paulo.

Rocha lembra que Adoniran Barbosa viveu no momento em que São Paulo se tornava a grande metrópole brasileira. “A matéria-prima dele é a tentativa de narrar a expansão urbana na perspectiva dos excluídos”, observa o escritor. “Os personagens são o homem comum, o trabalhador informal, o migrante que está chegando à cidade, gente que desenvolve as mais variadas estratégias para sobreviver. São pessoas das quais a história oficial nada fala. Essas biografias ficaram no anonimato, no silêncio”, acrescenta Francisco Rocha.

Além da crítica social e do tom dramático, Adoniran “faz a ponte entre o rádio e a rua”. Na opinião de Rocha, esse tom só foi ouvido com clareza nas gravações dos anos 1970. Ele cita a versão de Elis Regina para Saudosa maloca – cantando os dramas vividos pelo povo, a intérprete reafirmou a resistência à ditadura militar.

“Adoniran tem antena para captar vozes e dramas do homem comum no momento da apologia ao progresso, que nos versos dele, e fazendo crítica a esse discurso, torna-se ‘progréssio’”, explica Rocha. A linguagem e o português incorreto remetem a uma fonte cara à arte do paulista: a cultura oral. Por outro lado, ressaltam a resistência, com tom crítico à cultura oficial.

“Certa vez, ele disse que era preciso falar errado de modo certo”, lembra Francisco Rocha. A prática valeu censura ao artista. Tiro ao Álvaro, de acordo com o músico Sérgio Rosa, do grupo Demônios da Garoa, era considerado pela ditadura militar mau exemplo para os brasileiros. “A autenticidade e a força poética dessa arte se comunicam fortemente”, afirma.

Um casamento feliz, para a vida inteira. Assim Sérgio Rosa, o porta-voz do Demônios da Garoa, define a relação entre Adoniran Barbosa e o grupo. Tudo começou em 1949, durante as filmagens de O cangaceiro – o compositor atuava como ator, o conjunto fazia a trilha sonora. O namoro se fortaleceu com o sucesso, em 1951, da gravação de Malvina.

O estouro veio com Saudosa maloca – gravada por Adoniran, a canção virou hit com Demônios da Garoa. O lado dois do álbum trazia outra pérola, Samba do Arnesto. “Nunca vi Adoniran sorrindo. Ele estava sempre sério, era caladão. Entretanto, quando soltava alguma observação, fazia todo mundo rir”, conta Roberto Barbosa, de 70 anos, cavaquinista do Demônios. “Ele é artista caprichoso, põe a alma na música e sempre teve orgulho de criar o samba gaiato”, acrescenta.

Conviver com o amigo caladão nem sempre foi divertido. “Às vezes, era um chato. Quando gravamos Saudosa maloca, mudamos algumas palavras e criamos vocais percussivos. Bravo, ele disse que havíamos estragado a música”, conta Roberto. Quando veio o sucesso, voltou atrás: “Tá bom, gostei”, disse ele, como relembra o cavaquinista, imitando a voz do compositor.

“Suas canções simples retratam quase que fielmente o cotidiano do povo humilde. Ele foi um dos grandes poetas da nossa terra”, elogia Sérgio Rosa. Para conhecer o compositor na voz do grupo, ele sugere o disco Demônios da Garoa e convidados, comemoração dos 65 anos do conjunto, com participação de Lecy Brandão, Zeca Pagodinho, da bateria da escola de samba Rosa de Ouro e do Fundo de Quintal, entre outros. O grupo abriu o ano comemorando a obra do parceiro em apresentações com a Banda Sinfônica de São Paulo.

1.º edição, 2002
Ayrton Mugnaini Jr.
Editora 34

Sinopse


Ninguém expressou melhor a confluência de caipiras, italianos e malandros suburbanos em São Paulo do que João Rubinato, o genial Adoniran Barbosa (1910-1982). Este livro narra a trajetória desse ícone da cultura paulistana: os incontáveis biscates na adolescência, a iniciação no rádio durante os anos 1930, a criação de algumas de suas canções mais conhecidas e inúmeros "causos" deste inesquecível compositor.

Curiosidades: Adoniran Barbosa


*Trem das Onze, a música que não parou de circular. Composta em 1961, lançada em 1964, traduzida até para o iugoslavo, Trem das Onze fala do homem comum para o homem comum.


*A estação do Jaçanã foi aberta em 1910, próxima ao Asilo dos Inválidos, no Guapira, aliás o nome original da estação. É a mais famosa das estações da Cantareira, pois foi a inspiração para a música Trem das Onze, de Adoniram Barbosa. Trem que, aliás, nunca existiu, pois o último trem saía às 20:30. A estação foi desativada em 1965, com o ramal, e foi demolida já no ano seguinte.


Adoniran Barbosa: o poeta da cidade: trajetória e obra do radioator e ... Por Francisco Rocha
*Adoniran não só combateu como sofreu preconceito linguístico e grafocêntrico. Múltiplas são as variantes encontradas nas composições de Adoniran Barbosa que retrata com êxito o perfil sócio-cultural de uma comunidade.

A Historiografia e a Música Popular se encontram nessa obra de grande interesse à cultura nacional, particularmente a da cidade de São Paulo. Através da trajetória e obra do cancionista, comediante e radioator Adoniran Barbosa, o autor Francisco Rocha pretende resgatar o olhar do compositor às camadas inferiores da cidade. 'Saudosa Maloca', 'Trem das Onze', 'Iracema' e 'História Paulista' são algumas das canções que se destacam do extenso repertório do artista. De suas músicas e demais obras é que foi possível ao historiador o resgate biográfico de Adoniran, método que vem promover uma nova visão sobre os conceitos tradicionais de estudo da cultura popular e, paralelamente, a valorização da criatividade das chamadas pessoas comuns. Mais do que isso, a encarnação do popular no artista faz de Adoniran um agente divulgador da cultura nacional.



sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Centenário de nascimento de Adoniran Barbosa


Dia 06 de agosto/2010, comemora-se o centenário do nascimento do compositor Adoniran Barbosa, que imortalizou, em suas músicas, bairros como o Bexiga e o Jaçanã, em São Paulo. Um brinde ao talento deste artista que nasceu há exatamente 100 anos.

Adoniran Barbosa (João Rubinato, na certidão de batismo) foi poeta, ator, humorista, cantor e, acima de tudo, um compositor que marcou de modo único a música popular brasileira.


Descendente de imigrantes italianos, Adoniran cresceu frequentando o bairro do Bexiga, em companhia de personagens que inspiraram os tipos e situações imortalizados em clássicos como Samba do Arnesto, Saudosa Maloca, Iracema e Trem das Onze. As letras caricaturavam, com deliberado exagero, o modo de falar dos moradores dos bairros de imigrantes, e quase sempre celebravam a bem-humorada aceitação do inevitável.

Em 1978, Adoniran e Elis Regina se juntaram no Bexiga para cantar alguns sucessos do grande tradutor da alma paulistana. Acompanhe o vídeo com a música "Tiro ao Álvaro" que traz a performance da dupla.

A lembrança de Adoniran Barbosa em São Paulo vai além de suas composições, está no Museu Adoniran Barbosa, localizado na Rua XV de Novembro, 347; no Ibirapuera, o Albergue Adoniran Barbosa para desportistas; em Itaquera existe a Escola Adoniran Barbosa; no bairro do Bexiga, Adoniran Barbosa é o nome de uma rua famosa e na praça Don Orione há um busto do compositor; Adoniran Barbosa é também um bar e uma praça; no Jaçanã existe uma rua chamada "Trem das Onze"...

Adoniran deixou cerca de 90 letras inéditas que, graças a Juvenal Fernandes (estudioso da MPB e amigo do poeta), foram musicadas por compositores do quilate de Zé Keti, Luiz Vieira, Tom Zé, Paulinho Nogueira, Mário Albanese e outros. O paulista Passoca (Antonio Vilalba) lança o CD Passoca Canta Inéditas de Adoniran Barbosa. As 14 inéditas de Adoniran foram zelosamente garimpadas entre as 40 já musicadas. Outra boa notícia é que entre os primeiros 25 CDs da série Ensaio (extraídos do programa de Fernando Faro da TV Cultura) está o de Adoniran em uma aparição de 1972.


A gravadora Kuarup lançou um CD com a gravação de um show de Adoniran Barbosa realizado em março de 1979 no Ópera Cabaré (SP), três anos antes de sua morte. Além do valor histórico, o disco serve também para mostrar música menos conhecidas do compositor, como: Uma Simples Margarida (Samba do Metrô), Já Fui uma Brasa e Rua dos Gusmões.


Você Sabia?
*"Trem das Onze" (1964), seu maior sucesso. Em 1965 foi premiada no Carnaval do Rio de Janeiro. Além dos Demônios da Garoa, o samba recebeu uma versão da cantora baiana Gal Costa. Em 2000, foi escolhida pela população de São Paulo, em um concurso organizado pela Rede Globo, como a música que mais representa a cidade.

*Adoniran, o grande representante da música popular paulistana, ganhou um museu, localizado na Rua XV de Novembro, 347. No Ibirapuera, um albergue de desportistas levou seu nome. Há um busto seu na Praça Don Orione (bairro do Bexiga). Virou também escola, praça, bar e no bairro do Jaçanã, há uma rua chamada Trem das Onze.

*Na década de 30, por muito insistir, tornou-se cantor e apresentador de rádio; nas décadas de 40 e 50 foi ator de rádio, dando voz a vários personagens cômicos que ficaram famosos; na década de 50 foi ator de cinema e todos esqueceram que ele era cantor; na década de 60 todos se espantaram ao descobrir que ele era compositor; e na década de 70, já consagrado como cantor e compositor, virou garoto-propaganda de cerveja ("Nóis viemo aqui pra bebê ou pra conversá?").



Principais composições:
Abrigo de vagabundo, Adoniran Barbosa, 1959
Acende o candieiro, Adoniran Barbosa, 1972
Agüenta a mão, Hervê Cordovil e Adoniran Barbosa, 1965
Apaga o fogo Mané, Adoniran Barbosa, 1956
As mariposas, Adoniran Barbosa, 1955
Bom-dia tristeza, Adoniran Barbosa e Vinícius de Moraes, 1958
Despejo na favela, Adoniran Barbosa, 1969
Fica mais um pouco, amor, Adoniran Barbosa, 1975
Iracema, Adoniran Barbosa, 1956
Joga a chave, Osvaldo França e Adoniran Barbosa, 1952
Luz da light, Adoniran Barbosa, 1964
Malvina, Adoniran Barbosa, 1951
Mulher, patrão e cachaça, Osvaldo Moles e Adoniran Barbosa, 1968
No morro da Casa Verde, Adoniran Barbosa, 1959
O casamento do Moacir, Osvaldo Moles e Adoniran Barbosa, 1967
Pafunça, Osvaldo Moles e Adoniran Barbosa, 1965
Prova de carinho, Hervê Cordovil e Adoniran Barbosa, 1960
Samba do Arnesto, Alocin e Adoniran Barbosa, 1953
Samba italiano, Adoniran Barbosa, 1965
Saudosa maloca, Adoniran Barbosa, 1951
Tiro ao Álvaro, Osvaldo Moles e Adoniran Barbosa, 1960
Tocar na banda, Adoniran Barbosa, 1965
Trem das onze, Adoniran Barbosa, 1964
Viaduto Santa Efigênia, Nicola Caporrino e Adoniran Barbosa
Vila Esperança, Ari Madureira e Adoniran Barbosa, 1968


Entrevista com Ernesto Pauleli - personagem do "Samba do Arnesto"

O personagem que inspirou Adoniran Barbosa no Samba Do Arnesto. Acompanhe aqui um trecho da entrevista do Ernesto Pauleli, o "Arnesto" do samba de Adoniran Barbosa.

Ernesto falou ao CBN Campinas durante o quadro "Datas & Fatos" do dia 6 de agosto de 2005, dia em que Adoniran completaria 95 anos.

'Segura essa aí. Sem mancada, não tem samba'

Aos 90 anos, Ernesto Paulelli, cantor e tocador de violão no Bexiga entre as décadas de 30 e 60, personagem do famoso Samba do Arnesto, de Adoniran Barbosa, lembra a conversa que teve com o compositor, em uma tarde de 1979. Ele guarda a partitura número 1 até hoje.

- Que história é essa, Adoniran? Você está me tachando de francesista? De quem combina e depois prega o bolo? Não tô aguentando mais tanto comentário. 

- Arnesto, segura essa aí. Se não tem mancada, não tem samba.
Naquela tarde de 1979, Ernesto Paulelli reclamou com o amigo Adoniran Barbosa. A canção O Samba do Arnesto era a maior homenagem que tinha recebido na vida, mas já não suportava tanta gente perguntando por que não havia deixado pelo menos um recado na porta avisando aos amigos que tinha saído. 

Ao ouvir a resposta de Adoniran, Ernesto desistiu de reclamar. "Olha que danado: 'Sem mancada, não há samba'. Fiquei sem saída", conta hoje, aos 90 anos. 

Morador agora da Mooca - e não mais do Brás -, ele jura que nunca deu mancada nem convidou ninguém para sua casa. E toda a história surgiu apenas da criatividade de Adoniran. Mas acabou virando hino, depois de dividir o disquinho com Saudosa Maloca. 

A partitura número 001 da música, hoje está pendurada na sala da casa onde Ernesto vive. E traz uma dedicatória histórica: "Ao acadêmico Ernesto Paulella, a quem dediquei esta composição quando do seu lançamento, em maio de 1955. Homenagem do autor, Adoniran."
Antes de ficar famoso como Arnesto, Ernesto já circulava pelas rádios com seu violão. Nos fim dos anos 30, trabalhava como vendedor quando um conhecido o convidou para tocar na Rádio Bandeirantes.
Num dia de 1939, depois de terminar um programa de músicas com Nhá Zefa, ela o convidou para dar uma canja na Rádio Record, que funcionava na Rua Conselheiro Crispiniano. Bem na entrada da emissora, encontraram Adoniran Barbosa. Nhá Zefa o apresentou a Ernesto. Começava a amizade. 

Foi na Record que aconteceu o que deu origem ao samba. Um dia, Adoniran lhe perguntou se tinha um cartão. Ernesto tirou da carteira, entregou e ele leu: Arnesto Paulelli.
- Não sou Arnesto, sou Ernesto, respondeu. 
- Você é Arnesto. Seu nome dá samba. Vou fazer um samba com seu nome. Você aduvida (sic)? 
- Olha, Adoniran, nessas alturas do campeonato não duvido de nada. 
- É assim que se fala, respondeu, apertando a mão de Ernesto e lhe dando um abraço. 

Ernesto vivia no Brás. Dez anos depois, mudaria para a Mooca, onde está até hoje e onde, em 1955, descobriu a homenagem. Conta que estava com a "patroa" no quintal de casa quando ouviram os Demônios da Garoa cantando o Samba do Arnesto no rádio.
- Alice, essa peteca é minha. 
- Que peteca, Ernesto? 
- É o samba do Arnesto que o Adoniran me fez. 

Comovidos, os dois se abraçaram para ouvir o samba. "Ela se emocionou, eu me emocionei, as lágrimas rolaram, sabe?", lembra. 
Mas levou ainda dois anos para Ernesto conseguir agradecer o presente. Foi depois de ser convidado para ser violonista de um programa na TV Record. 

"Quando cheguei, quem encontro? O Adoniran", recorda. 
- Arnesto, te fiz o samba. Você gostou? 
- Se gostei? Você me abriu no meio de emoção. 
- Então me dá um abraço. A partir de agora, você é meu compadre, disse Adoniran. 

Fonte: Jornal da Tarde, 25/01/2005

sábado, 26 de julho de 2008

Adoniran Barbosa

O sucesso artístico com que Adoniran sempre sonhou custou-lhe mesmo saturninos esforços: "Nada meu foi conseguido com facilidade. Tudo parecia com alguém que quisesse entrar num elevador e, embora havendo lugar, o cabineiro, que não ia com a minha cara, logo dizia: "tá lotado!".


João, sétimo filho de Fernando e Ema Rubinato, imigrantes italianos de Veneza, que se radicaram em Valinhos. A verdadeira data de nascimento de Adoniran foi 06/07/1912, que foi "maquiada"para que ele pudesse trabalhar ainda menino.

Muda-se para Jundiaí/SP, e começa a trabalhar nos vagões de carga da estrada de ferro, para ajudar a família, já que só conseguia ser convencido a frequentar a escola pela vara de marmelo empunhada por D. Ema. É entregador de marmitas, varredor etc.

Em 1924, muda-se para Santo André/SP. Lá é tecelão, pintor, encanador, serralheiro, mascate e garçon. No Liceu de Artes e Ofícios aprende a profissão de ajustador mecânico.

Aos 22 anos vai para São paulo, morar em uma pensão e tentar ganhar a vida. O rapaz João Rubinato já compõe algumas músicas. Participa do programa de calouros de Jorge Amaral, na Rádio Cruzeiro do Sul e após muitos gongos, consegue passar com o samba Filosofia, de Noel Rosa.

Em 1932 ele veio morar sozinho em São Paulo. Logo começou a frequentar as rádios, cantando sambas em programas de calouros.


No do animador Jorge Amaral, na rádio Cruzeiro do Sul, ganhou um 1º prêmio interpretando "Filosofia", de Noel Rosa, apropriada para sua voz rouquenha. Recebeu 25 mil réis e um contrato, pois teve a sorte de ser notado pelo Paraguaçu, diretor do programa.

Adotou um nome artístico que homenageava dois amigos: o funcionário do correio Adoniran e o sambista carioca Luiz Barbosa. Ele achava que João Rubinato não era nome de cantor de samba. Resolveu mudar. De um amigo pegou emprestado Adoniran e, em homenagem ao sambista Luiz Barbosa, adotou seu sobrenome. Foi assim que Adoniran Barbosa tornou-se um dos maiores nomes do cancioneiro popular brasileiro e uma das mais importantes vozes da população ítalo-paulistana.

Cantou músicas alheias, com regional, nas rádios Cosmo (depois América), São Paulo, Difusora.


Em 1935, inscreveu "Dona Boa" (composição sua, em parceria com o pianista carioca J. Aymberê) no concurso para o carnaval oficial da Prefeitura paulista. Ganhou o 1º prêmio: 500 mil réis. O cheque foi descontado na Praça da Sé e o dinheiro mal deu para a farra que Adoniran e os amigos aprontaram. Ele acabou voltando a pé para casa.

Nesse mesmo concurso, o 2º lugar ficou com outro novato, o Ranchinho. E Adoniran se encontraria com a notável dupla caipira Alvarenga e Ranchinho no cast da rádio São Paulo, ainda em 1935. Foi quando saiu a primeira matéria sobre ele em jornal, com um título que ainda hoje repete de memória: "No baralho tem um ás de ouro. Na Rádio São Paulo tem três: Adoniran Barbosa, Ranchinho e Alvarenga".

Adoniran, em foto de 1980, com seu figurino típico: chapéu e gravata-borboleta

O ano é 1933 e ele ganha um contrato passando a cantar em um programa semanal de 15 minutos, com acompanhamento de regional.

Em 1933 passa a usar o nome artístico de Adoniran Barbosa. O prenome incomum era uma homenagem a um amigo de boemia e o Barbosa foi extraído do nome do sambista Luiz Barbosa, ídolo de João Rubinato.

Em 1934 compõe com J. Aimberê, a marchinha Dona Boa que venceu o concurso carnavalesco organizado pela Prefeitura de São Paulo, no ano seguinte. O sucesso dessa música levou-o a decidir casar-se com Olga, uma moça que namorava já há algum tempo. O casamento durou pouco menos de um ano, mas é dele que nasce a única filha de Adoniran: Maria Helena.

Um dia, o Blota Jr. e o Vicente Leporace resolveram fazer uma experiência e colocaram o Adoniran num programa humorístico que eles tinham na rádio Cruzeiro do Sul. O auditório entrou em delírio. E, a partir daí, a carreira de rádio-ator passou a ser sua principal ocupação...

Na rádio Cruzeiro do Sul ficou até 1940, transferindo-se, em 1941, para a rádio Record, a convite de Otávio Gabus Mendes. Ali começou sua carreira de ator participando de uma série de radioteatro intitulada "Serões Domingueiros".


Essa foi a oportunidade para Adoniran começar a criar sua galeria de personagens, sempre cômicos, como o malandro Zé Cunversa ou Jean Rubinet, um galã de cinema francês. O linguajar popular de seus personagens encontrava par em suas composições. A maneira de compor sem se preocupar com a grafia correta tornou-se sua maior característica e lhe rendeu críticas de gente como o poeta e compositor Vinícius de Moraes. Adoniran não deu importância às declarações de Vinícius, tanto que musicou uma poesia do escritor carioca transformando-a na valsa "Bom Dia, Tristeza".

Às críticas que recebia Adoniran rebatia: "só faço samba pra povo. Por isso faço letras com erros de português, porquê é assim que o povo fala. Além disso, acho que o samba, assim, fica mais bonito de se cantar."

Em 1941 foi para a Rádio Record (chamado pelo Otávio Gabus Mendes), onde fez humorismo e rádio-teatro, e só sairia com a aposentadoria, em 1972. Na Record, Adoniran conheceu o produtor Osvaldo Moles, responsável pela criação e pelo texto dos principais tipos interpretados por ele. Os dois trabalharam juntos durante 26 anos.

No rádio, um dos maiores sucessos dessa parceria foi o programa "Histórias das Malocas", onde Adoniran representava o personagem Charutinho. O programa ficou no ar pela rádio Record até 1965, chegando a ter uma versão para a televisão. Os dois também dividiram a criação de vários sambas.


Dessa união nasceram, entre outros clássicos, "Tiro ao Álvaro" e "Pafúncia". Foi lá que criou tipos inesquecíveis como Pernafina e Jean Rubinet, entre outros. Os programas foram se sucedendo:


*Palmolive no Palco;
*Escolinha Risonha e Franca (ele era o Barbosinha Maleducado da Silva);
*Casa da Sogra (interpretava vários tipos: o galã de cinema francês Jean Rubinet, o professor de inglês Richard, o cobrador de prestações Moisés Rabinovichi, o chofer de táxi do Largo do Paissandu Perna Fina);
*Zé Conversa e Catarina ("o Zé Conversa era um crioulo folgado da Barra Funda que vestia a roupa do patrão para conquistar as empregadinhas");
*O Crime Não Compensa (este já era sério e o Adoniran fazia sempre o criminoso).


Mas, o grande sucesso foi mesmo o História das Malocas, escrito por Osvaldo Molles (o Adoniran, com seu sotaque italiano, o chama de Molichi...) e inspirado no sucesso da música "Saudosa Maloca".

A galeria de tipos é inesquecível: a Teresoca, o Trabucão, Panela de Pressão, Pafunça. E o principal deles, "um preto da favela, vagabundo, que não faz nada", marcaria época, interpretado por Adoniran: o Charutinho. Estreado em 1955, o personagem Charutinho seu maior sucesso no rádio, no programa História das Malocas de Oswaldo Molles.

[Trata-se de mais um dos personagens curiosos baseados no carismático presidente do Corinthians, Alfredo Ignácio Trindade. Outro deles é o político populista vivido por José Lewgoy no filme Terra em Transe, de Glauber Rocha.]


O História das Malocas ficou no ar de 1954 a 1968, em dois horários: domingo às 12h e sexta-feira às 21h. Adoniran diz que ele foi o programa humorístico de maior audiência do rádio brasileiro, graças ao talento de Molles ("igual a esse não apareceu mais nenhum e nem vai aparecer").

Perguntado se ele próprio, Adoniran, chegava a criar alguma piada. Ele responde: "Eu não. E nem precisava, que eu falando já era uma piada."


Adoniran compôs de forma descontínua: "Joga a Chave", "Malvina" e "Iracema", em 1943; pausa até 1950, ano de "Saudosa Maloca", "Samba do Arnesto" e "Os Mimoso Colibri"; novo lapso até 1956, quando suas composições antigos fazem sucesso na interpretação dos Demônios da Garoa e ele se anima a uma parceria com Vinícius de Moraes, "Bom Dia Tristeza", que Aracy de Almeida gravou.


Em 1949, Adoniran casa-se pela 2ª vez com Matilde de Lutiis, que será sua companheira por mais de 30 anos, inclusive parceira de composição em músicas como Pra que chorar? e A Garoa vem Descendo.

Sua estréia no cinema se dá em 1945 no filme PIF-PAF, seguido de "Caídos do Céu", em 1946, ambos dirigidos por Ademar Gonzaga. Participou também, como ator, das primeiras telenovelas da TV Tupi, como A pensão de D. Isaura. Seu melhor desempenho no cinema, acontece no filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, na Vera Cruz.


Compõe inúmeras músicas de sucesso, quase sempre gravadas pelos Demônios da Garoa. As músicas Malvina e Joga a Chave foram premiadas em concursos carnavalescos de São Paulo. Destacam-se Samba do Ernesto, Trem das Onze, Saudosa Maloca, etc.

Finalmente, em 1964, o grande sucesso: "Trem das Onze", que, sem ser música carnavalesca, acabou se tornando um dos cinco sambas mais executados no carnaval do centenário do Rio de Janeiro, valendo a Adoniran 2 mil cruzeiros de prêmio e um troféu que ele exibe até hoje, com a inscrição "Adoniran Barbosa, campeão carioca do carnaval".

Era o coroamento de sua carreira de compositor paulista, consagrar-se na capital do samba!

E depois? O justo reconhecimento, a possibilidade de gravar seu próprio LP, a aceitação de seus sambas originais, falando de tipos esquecidos do cotidiano em seu linguajar simples e cheio de erros de português?

Nada disso. Mais um período obscuro, de vacas magras. E ele , que já atuara no cinema (inclusive em O Cangaceiro), chega ao fim dos anos 60 fazendo pontas em novelas da TV Tupi, como Mulheres de Areia e Ovelha Negra.


O reconhecimento, porém, vem somente em 1973, quando grava seu primeiro disco e passa a ser respeitado como grande compositor. Foi quando o produtor musical João Carlos Botezelli, o Pelão, tornou-se seu amigo e começou a corrigir as injustiças de toda uma vida. Levou Adoniran para se apresentar no teatro Treze de Maio, foi um tremendo êxito. Conseguiu que ele gravasse o primeiro LP na Odeon, em 1975. Dá-se o episódio pitoresco da impossibilidade de colocar nesse disco, que reuniu seus grandes sucessos, o "Samba do Arnesto", porque um decreto oficial proibia o mau uso do vernáculo nos veículos de comunicação.


O professor Antônio Cândido sai em defesa de Adoniran, na contracapa do LP: “Adoniran Barbosa” (Odeon, 1975; Dir. Musical de José Briamonte):

"Já tenho lido que ele usa uma linguagem misturada de italiano e português. Não concordo. Da mistura, que é o sal de nossa terra, Adoniran colheu a flor e produziu uma obra radicalmente brasileira, em que as melhores cadências do samba e da canção, alimentadas inclusive pelo terreno fértil das Escolas, se aliaram com naturalidade às deformações normais de português brasileiro, onde Ernesto vira Arnesto, em cuja casa nóis fumo e não encontremo ninguém, exatamente como por todo esse País".

Mais um LP em 1976. E um novo hiato hiato até agora, quando saiu o disco comemorativo de seus 70 anos, em meio a todas as festividades programadas pela Emi-Odeon. Um sucesso certo, a julgar por sua qualidade, pela repercussão da data e pelo peso dos convidados (Clementina de Jesus, Clara Nunes, Carlinhos Vergueiro, Djavan, Elis Regina, Gonzaguinha, MPB-4, etc.).

E depois? Quanto tempo levará até que o público recorde novamente esse que é um dos mais sensíveis e humanos retratistas do seu cotidiano? Meses? Anos?

Não importa. Adoniran seguirá mantendo seus rituais diários, resistindo obstinadamente à velhice e à acomodação. Continuará se apresentado pela periferia e pelo interior, em faculdades, escolas, prefeituras, entusiasmado com o público jovem que conquistou ("Até a criançada já me conhece!" - afirma, orgulhoso).

Não importa que volte dessas excursões exausto, desabe na cama e permaneça o dia e a noite toda recuperando as forças. E se alguém lhe perguntar se gosta da vida que leva, decerto ele responderá sinceramente que sim, talvez até acrescentando sua frase célebre: "Nóis ganha poco, mais nóis si diverti!"

A partir de 1972, Adoniran começa a trabalhar em televisão. No início eram apenas bicos como "cobaia" para testes de câmera.

Em seguida, começou a atuar em programas humorísticos como "Ceará Contra 007" e "Papai Sabe Nada" da TV Record, além de ter participado das novelas "Mulheres de Areia" e "Os Inocentes". Seu primeiro disco individual só foi gravado em 1974, seguido por outro em 1975, e o último em 1980, este com a participação de vários artistas: Djavan, Clara Nunes, Clementina de Jesus, Elis Regina, os grupos Talismã e MPB-4, entre outros, participaram do registro em homenagem aos seus 70 anos.

Uma de suas últimas composições é Tiro ao Álvaro, gravada por Elis Regina em 1980.



Centenário do Nascimento de João Rubinato
Dá licença de contar: o centenário do nascimento de João Rubinato, nome verdadeiro de Adoniran Barbosa, é apenas no dia 6 de agosto. Em janeiro/
2010, no entanto, São Paulo já começa a homenagear um dos artistas que mais lhe pa garam tributo. Músico e ator completaria 100 anos em agosto. Shows e biografia celebram sua obra a partir de janeiro de 2010...

O início das comemorações deu-se no fim de 2009, com o lançamento de uma agenda (Editora Anotações com Arte; 49 reais) que narra a história do compositor com textos e fotos inéditas — entre elas a da aliança feita por Adoniran com a corda mi de seu cavaquinho para presentear a mulher, Mathilde (fato perpetuado na música Prova de Carinho).

Em janeiro/2010 foi lançada a segunda edição de Adoniran — Uma Biografia (Editora Globo), escrita pelo jornalista Celso de Campos Jr. — uma novidade do livro são os roteiros dos programas de rádio nos quais ele encenava o personagem Charutinho, nos anos 50.

Pode-se dizer que Adoniran foi um artista multimídia bem antes da criação do termo. Ele atacou de cantor, compositor, humorista e ator dramático em rádio, TV, cinema e circo.

Em “Adoniran – Uma Biografia” (Editora Globo), o jornalista Celso de Campos Jr. conta as aventuras (e desventuras) deste filho de imigrantes italianos cujo nome de batismo era João Rubinato. E que, apesar de ter sido considerado “A Voz de São Paulo” pelo crítico literário Antônio Candido e de suas composições serem verdadeiras crônicas da cidade, ele não nasceu na capital.

O homem que popularizou o “paulistanês” – aquele sotaque ítalo-paulistano-caipira presente em suas músicas – nasceu em Valinhos, próximo a Campinas. “Mesmo que não tenha nascido aqui, Adoniran se incorporou àquela São Paulo de meados do século passado de um jeito extraordinário e soube sintetizá-la como poucos”, diz Cunha Jr., que faz uso no livro da ironia tão presente trajetória artística do Adoniran.

"Ele foi muito mais do que um compositor", diz Campos. "Ganhou cinco vezes o Prêmio Roquete Pinto como radioator da Record, estrelou filmes como O Cangaceiro, de Lima Barreto, e fez diversas novelas na Tupi."

Outros shows-homenagens aconteceram nos dias 23 a 25 de janeiro no Sesc Vila Mariana e no Sesc Ipiranga. Neste, o show, batizado de O Arnesto Nos Convidou, mistura grupos de samba de raiz com a velha guarda da Vai-Vai, da Camisa Verde e da Nenê de Vila Matilde.

Kiko Dinucci, sambista da nova geração, faz uma releitura de sucessos de Adoniran, além de obras suas e de artistas que também foram influenciados pelo mestre. “Eu tinha quatro anos quando ele morreu, mas tem uma coisa do Adoniran no imaginário, que atravessa gerações”, diz Dinucci, que já foi roqueiro na adolescência.

Entre as releituras que ele faz, “Já Fui Uma Brasa”, na qual Adoniran faz referência à Jovem Guarda (“Mas lembro que o rádio que hoje toca iê-iê-iê o dia inteiro, Tocava saudosa maloca...”) contou com a companhia de uma música de Roberto Carlos. Já “Conselho de Mulher”, que faz uma critica social ao crescimento desenfreado da metrópole (“Pogressio, pogressio/Eu sempre iscuitei falar, que o pogressio vem do trabaio./Então amanhã cedo, nóis vai trabalhar.”) é apresentada com um arranjo erudito. E “Joga A Chave, Meu Bem”, ganha ritmo de salsa.

Em fevereiro, teve o Skarnaval, no Hangar 110, onde as músicas de Adoniran forão entoadas em ritmo de ska.

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, de 72 anos, filha única de Adoniran, está feliz da vida com as homenagens, mas lamenta que nenhuma escola de samba da cidade tenha dedicado seu enredo ao compositor no Carnaval 2010.

As escolas de samba viraram empresas. Dependem de patrocínio.” No dia 25, entra no ar o portal adoniranbarbosa, com a história de Adoniran e informações sobre os eventos do centenário.

Há previsão de um documentário dirigido pela cantora e compositora Vange Milliet, um musical produzido pelo crítico de cinema Rubens Ewald Filho, uma história em quadrinhos, um CD, shows, um projeto social em escolas públicas e o programa Por Toda Minha Vida, da Rede Globo. “Deve ir ao ar em abril”, diz Maria Helena. Seu sonho, no entanto, é concentrar em um museu o acervo sobre a carreira do “paizão”, como ela chamava Adoniran, um paulista que provou a Vinicius de Moraes e ao Brasil que São Paulo não é o túmulo do samba.