quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Dino Rocha


Aos 56 anos de carreira, Dino Rocha é o homem forte da música sul-mato-grossense.

Dino ao lado da Sanfona que tem mais de 40 anos e foi comprada em Minas Gerais (Foto: Alcides Neto)

Aos 9 anos de idade, Dino Rocha decidiu tocar acordeon. O desejo repentino, impossível de ser controlado tornou-se parte essencial da sua história, de um artista que conseguiu trabalhar exatos 56 anos de carreira exclusivamente de música. Caçula de dez filhos e autodidata, Roaldo, como está na certidão de nascimento, se interessou pelo instrumento quando descobriu a morte precoce do sanfoneiro da família. Dali em diante, homenageou sem parar o irmão que tinha partido.

“Eu vi meu irmão, vi ele fardado duas vezes, com a mão atrás da cabeça, dando uma risadinha, quando eu olho, que eu fixo o olhar, ele não está mais ali. Ele tocava sanfona, eu acredito que eu vi meu irmão, duas vezes, ele não falou nada, mas me olhava como se dissesse que eu estava tocando errado”, conta, um emocionado Dino Rocha.


Dino se emociona ao falar de Gaivota Pantaneira, maior sucesso da carreira (Foto: Alcides Neto)


As mãos repousam na companheira de tantos anos (Foto: Alcides Neto)

Natural de Jutí, interior de Mato Grosso do Sul, o músico cresceu afastado de qualquer instrumento. Mais novo de todos os dez irmãos, só descobriu o desejo de tocar sanfona no dia que o irmão faleceu. Um acidente no quartel de Ponta Porã levou precocemente o representante musical da família. O jeito foi homenagear quem partiu. “Eu comecei a tocar com nove anos de idade. Nem sanfona eu conhecia, no mato. Meu irmão faleceu e me deu aquela vontade de tocar a sanfona. Me arrumaram uma de oito baixos, que me deram e eu já toquei. A gente falando assim parece até esquisito”, ri.


Autodidata, Dino nunca teve aula do instrumento. Com mãe alemã e pai filho de gaúcho com argentina, Dino aprendeu todas as músicas ouvindo e reproduzindo o que escutava nas redondezas de casa. Com a morte do irmão, a família se mudou para Ponta Porã, lá na fronteira com o Paraguai, o dom cresceu. “Em trinta dias eu não queria mais a sanfona porque era muito pequena. Arrumaram uma maior, de 48 baixos. Mudamos para Ponta Porã quando eu tinha 12 anos. Um ano depois eu já tocava em baile, tinha um conjunto em Pedro Juan Cabaleiro”, relembra.

Na necessidade, o jeito foi investir no que sabia fazer de melhor. Apaixonado por chamamé, “quanto mais eu conheço, mais gosto”, Dino viajou o País inteiro mostrando o som fronteiriço, de quem aprende cedo o quanto as influências da Argentina, Paraguai e Bolívia são essenciais para a nossa identidade. “Toquei, viajava, tinha 15, 16 anos. Eu, minha sanfona e minha malinha de roupa. Quando foi em 1972 vim para Campo grande. Deus que orienta, o que eu ia fazer naquele tempo em Ponta Porã. Nem rádio tinha. A rádio era no Paraguai”, conta.

Hoje, aos 65 anos, Dino relembra que chegou com o nome de batismo na Capital. Foi Zacarias Mourão que o recebeu de braços abertos e um apelido. “Cheguei aqui na época e tinha uma dupla famosa, Amambai e Amambaí. Eu não tinha um nome artístico, o saudoso, poeta, Zacarias Mourão, ele que me apelidou de Dino Rocha e levou a gente para São Paulo”, diz.


Dino toca um chamamé ao lado do músico e amigo Ado (Foto: Alcides Neto)

Com mais de 100 composições instrumentais autorais, Dino Rocha acredita que o processo de criação é espontâneo. “Eu gravei um disco antigamente era LP, com Amambai e Amambaí. Foi nosso primeiro disco, eu tremia mais que vara verde, nunca tinha visto um estúdio e nesse disco eu gravei Gaivota Pantaneira. Em 1973 para 2016 fez 43 anos, mas parece que eu gravei ela ontem”, conta.

O grande sucesso da carreira fez fama por causa da novela Pantanal, lançada em 1990. “Gaivota tocou em Pantanal, fiz três participações com Sérgio Reis e Almir Sater. Eu gravei mais 30 discos, entre CD e LP. Faz tempo que eu dei uma relaxada, mas essa semana eu vou começar a gravar aqui. Um disco novo e instrumental”, comenta.

Ao lado de outros músicos, como Paulo Simões e Guilherme Rondon, Dino Rocha integra ainda o Chalana de Prata, grupo que toca grandes canções da história de Mato Grosso do Sul. “Gravei, fui para São Paulo, gravei com os Filhos de Goiás, dez anos, três discos. Eu 1993 eu gravei o primeiro CD. Tem vários discos com o Chalana de Prata. O Celito trabalha na comunicação, o Paulinho não para vai para São Paulo, viajando. O Guilherme vive no Pantanal, eu toco aqui, ali, aniversário, casamento, disquite. De vez em quando que nós se junta e faz o Chalana de Prata.


Com mais de 100 composições, Dino é ícone do Chamamé no mundo (Foto: Alcides Neto)

Nem mesmo todo o conhecimento que adquiriu fez com que Dino Rocha deixasse de amar o chamamé. “É o que eu sei e o que eu mais gosto. Fiz uma turnê para o Sesc do Rio de Janeiro, 105 shows, do Brasil inteiro, de Manaus, a Acre e Rio Grande do Sul, só chamamé. O ano passado eu fui fazer um show na Bahia, festival de acordeon, tinha italiano, português, australiano, o criador de Esperando na Janela, Targino Gondim que organizou. A apresentação foi no teatro cheio, eu representei Mato Grosso do Sul, toquei uma música e antes de tocar a segunda, uma galera na plateia gritou Gaivota Pantaneira. Rapaz, aquilo me mexeu”, relembra.

Juntos, o auditório inteiro reproduziu a canção. “A criação deles não era me chamar de sanfoneiro, mas sim de mestre”, diz, surpreso.


Para quem tocou ao lado de Dominguinhos e sempre defendeu o chamamé, a vida tem sido uma recompensa. “90% das minhas canções fui eu que fiz. A primeira foi em 72, fui criando, inventando”, diz.

Segundo o instrumentista, hoje, o que mais tem são pessoas que nem sequer afinam o violão direito, mas se dizem músicos. “Antigamente era um sacrifício entrar na televisão, hoje é bem mais fácil. Eu não tinha conhecimento, nunca fiz nada além da música, nunca ganhei dez cruzeiros de falar fui trabalhar um dia e ganhei dez contos. Só música, depois que eu comecei a gravar e entender as coisas, foi com ela que eu criei meus três filhos, bem ou mal, foi só da sanfona, essa sanfona tem mais de 40 anos que eu tenho ela, comprei em 1976 lá em Minas Gerais”, frisa.

Com uma carreira tão extensa, Dino nem pensa em parar. "A gente cansa, mas não enjoa". Sobre o título de maior chamamezeiro do País, o artista nem rejeita o agrado. "Eu fico quieto quando dizem, porque se você pensar bem não tem outro. Já tiveram antes de mim, como o grande Zé Correia, mas hoje não sei mais", reflete.


FONTE

https://www.campograndenews.com.br/lado-b/artes-23-08-2011-08/aos-56-anos-de-carreira-dino-rocha-e-o-homem-forte-da-musica-sul-mato-grossense

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Dez músicas sobre política no Brasil

"Amigos costuma ter
no partido do governo,
Mas em tempos de eleição
Decide mostrar-se contra

e outros amigos encontra
Nas hostes da oposição.
Por motivo semelhante,

quando esperam que ele jante
Em casa de um ministro

ou que compareça ao banquete
de alguém que esteja em manchete,
Ele come num bistrô.”

T. S. Eliot

A música brasileira, assim como sua gente, é mista e abarca uma variedade de gêneros. Dos mais diferentes tipos, passando por inúmeros trejeitos, atravessando gerações e ritmos, os compositores da terra tematizaram sobre política, de maneira crítica, panfletária, indignada ou persuasiva. O que também traz à tona outra característica rica e importante, fundamental, tanto para a música quanto para a política: a diversidade de opiniões que compõe uma democracia. Eleja o seu candidato preferido, eles desfilam com seus galardões. Noel Rosa, Cazuza, Adoniran Barbosa, Lobão, Raul Seixas, Nássara, João do Vale, Renato Russo, Arlindo Marques apresentam propostas.

Onde está a honestidade? (1933) – Noel Rosa


Logo na primeira metade da década de 1930, a música brasileira versava sobre política. E o título da canção era justamente “Onde está a honestidade?”, um samba de Noel Rosa lançado pelo próprio. Século depois, e a música continua atual, o que prova não apenas o poder de captura e síntese de Noel Rosa, como a percepção de que a crônica dos costumes nacionais não se alterou de maneira dramática dali pra cá. Ou talvez seja esse o drama. A letra não poderia ser mais precisa: “Você tem palacete reluzente/Tem joias e criados à vontade/Sem ter nenhuma herança nem parente/Só anda de automóvel na cidade/E o povo já pergunta com maldade:/‘Onde está a honestidade?’”.

A menina presidência (1937) – Nássara e Cristóvão Alencar


Em 1937, não se aventava a possibilidade de uma mulher governar o Brasil, ainda assim o gênero feminino se via presente na marchinha composta por Nássara e Cristóvão Alencar, lançada por Silvio Caldas na companhia da Orquestra Odeon. O título “A menina presidência”, era referência à disputa entre três homens ao cargo: Armando Salles de Oliveira, chamado de “seu Manduca” na letra, Oswaldo Aranha, tratado por “seu Vavá”, e Getúlio Vargas, o vencedor, na ocasião, referido como “seu Gegê”, que desejavam essa vitória como a uma mulher. A marchinha tornou-se vencedora de um concurso promovido pelo jornal “A Noite”, intitulado “Quem Será o Homem?”.

Se eu fosse Getúlio (1954) – Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti


Em 1954 a palavra “mamata” já estava tão impregnava no dia a dia dos brasileiros, e da política do país, que foi parar, com justiça, numa marchinha de Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti, que dá boa medida dos feitos de nossos representantes quando ocupam cargos públicos. “Se eu fosse Getúlio”, dava dicas ao ditador sobre como solucionar os graves problemas sociais e econômicos que assolavam a nação. Cheia de ironia e cinismo, a receita era aparentemente simples, questão de colocar os doutores e funcionários públicos para trabalhar. “Mandava muita loura/Plantar cenoura/E muito bonitão/Plantar feijão/E essa gente da mamata/Eu mandava plantar batata”.

“Sina de Caboclo” - João do Vale com J. B. de Aquino



Dez anos depois do suicídio de Getúlio Vargas o Brasil saía de uma ditadura e entrava em outra. Logo no primeiro ano do período de chumbo que transcorreu no país de 1964 a 1985, o compositor João do Vale lançou no espetáculo “Opinião”, de Paulo Pontes, Ferreira Gullar, Armando Costa e Oduvaldo Viana Filho, dirigido por Augusto Boal, em que contracenava com Nara Leão e Zé Kéti, a música “Sina de Caboclo”, parceria com J. B. de Aquino. Nela, os compositores se rebelam contra a exploração dos patrões ao trabalhador rural. Gravada por Nara Leão no mesmo ano, a canção apresenta, logo no início versos de força e resistência: “Mas plantar pra dividir/Não faço mais isso, não”.

Despejo na favela (1969) – Adoniran Barbosa


Não é por falta de mérito que Adoniran Barbosa é tido e havido como cronista. Além de capturar o sotaque e a prosódia específica da população paulista descendente da colônia italiana que aportou no Brasil, e da qual fazia parte, o compositor se sensibiliza com as questões mais rotineiras e diárias vividas pela população, das trágicas às cômicas, sempre com um toque de incentivo. “Despejo na favela”, de 1969, foi lançada pelo sambista Nerino Silva no compacto do V e último “Festival da Música Popular Brasileira” produzido pela TV Record. No samba, fica clara a maneira desonesta e intolerante com que os políticos brasileiros comandam as remoções dos moradores mais pobres. Em 1980, foi regravada por Adoniran em parceria com Gonzaguinha.

Inútil (1985) – Roger Moreira


Com a abertura para a democracia na política brasileira a música também se abriu para um novo ritmo, a princípio estrangeiro, mas temperado com o estilo tupiniquim de se comunicar. O rock nacional dos anos 1980 apresentou bandas e compositores com diferentes embalagens e conteúdos. Em São Paulo, um dos maiores destaques foi o “Ultraje a Rigor”, liderado pelo vocalista Roger Moreira, autor da emblemática canção “Inútil”. Além de fazer troça com a forma oral de se expressar, ignorando os plurais, ainda lançava ácidas críticas à capacidade dos brasileiros de definir os próprios destinos. “A gente não sabemos escolher presidente/a gente não sabemos tomar conta da gente”.

“Que País É Este?”. Legião Urbana


1987 foi um ano profícuo de canções com referência à política brasileira. Nenhuma delas elogiosa. Um dos que estendeu a bandeira com maior propriedade e relevância foi o compositor e vocalista da banda “Legião Urbana”, Renato Russo. O protesto tornou-se tão simbólico que é hoje praticamente um ditado popular: “Que País É Este?”. A música aborda de forma direta e narrativa episódios de corrupção e violência na política brasileira, e ainda chama a responsabilidade a todos, antes de chegar ao início do processo que teria se dado logo na “apropriação” do país pelos portugueses, quando o autor clama aos que aqui estiveram primeiro. “Quando vendermos todas as almas/Dos nossos índios num leilão”.

Cowboy Fora Da Lei (1987) – Raul Seixas e Cláudio Roberto


Raul Seixas é um artista iminentemente político, talvez por esse poder de transformação associado à sua figura tenha permanecido com tanta força como uma figura popular e lendária. Depois de lançar vivas e efetivamente fundar os preceitos de uma “Sociedade Alternativa”, além de pregar ensinamentos cósmicos e de rebeldia, o “Maluco Beleza” lançou, em 1987, as suas considerações sobre assumir um cargo público. “Cowboy Fora Da Lei”, parceria com Cláudio Roberto, debocha, logo no início, da forma arcaica e coronelista que fundou grande parte da nossa política. “Mamãe não quero ser prefeito/Pode ser que eu seja eleito/E alguém pode querer me assassinar”.

Panamericana [Sob o sol de Parador] (1989) – Lobão, Arnaldo Brandão e Tavinho Paes


Em 1989 o compositor Lobão dispara para todos os lados no desabafo contra as maneiras truculentas e com uso da violência de se fazer política na América Latina. Na canção “Panamericana [Sob o sol de Parador]”, parceria com Arnaldo Brandão e Tavinho Paes não se alivia a barra para “os ditadores do Partido Colorado”, “os guerrilheiros de Farrabundo Marti”, “os assassinos dos índios brasileiros” ou os “fuzileiros do M – 19”, entre outros citados nominalmente ao longo da letra, que ainda conta com lembrança à histórica frase atribuída ao revolucionário Che Guevara: “Hay que endurecer, pero sin perder la ternura”. Lobão endurece com um rock de batida potente e ágil.

Brasil (1988) – Cazuza e George Israel


Bem ao estilo de Cazuza, a música “Brasil”, parceria com George Israel, apresenta versos tão sintéticos quanto rascantes, um verdadeiro nocaute poético aos que se apoderavam do país em benefício próprio. “Brasil, mostra a tua cara!/Quero ver quem paga/Pra gente ficar assim!/Brasil, qual é o teu negócio?/O nome do teu sócio?/Confia em mim”. Após enumerar uma série de abusos e privações sofridas pela população brasileira, Cazuza deixa claro que o protesto e a indignação são, na verdade, uma declaração de amor. Lançada pelo compositor em seu álbum “Ideologia”, de 1988, foi regravada por Gal Costa no mesmo ano e virou tema de abertura da novela “Vale Tudo”.


FONTE

http://www.esquinamusical.com.br/10-musicas-sobre-politica-no-brasil/