quarta-feira, 2 de março de 2011

Lupicínio Rodrigues


Gaúcho de família humilde, trabalhou desde cedo como mecânico de automóveis, mas sempre gostou de músicas de carnaval e da vida boêmia de Porto Alegre. Lupicínio conseguiu fazer sucesso fora do eixo Rio-São Paulo, o que é difícil hoje e era mais ainda nos anos 30. Suas músicas tratam geralmente de temas de "dor de cotovelo", amores fracassados e traídos.

Utilizando com habilidade intuitiva os lugares-comuns da fala popular, de seus versos não está ausente um certo kitsch, sobre o qual, porém, construiu uma obra poético-musical que ocupa um lugar ímpar na música popular brasileira.

Lupicínio Rodrigues (Porto Alegre, 16 de setembro de 1914 — Porto Alegre, 27 de agosto de 1974) foi um compositor brasileiro.

Lupe, como era chamado desde pequeno, compôs marchinhas de carnaval e sambas-canção, músicas que expressam muito sentimento, principalmente a melancolia por um amor perdido. Foi o inventor do termo dor-de-cotovelo, que se refere à prática de quem crava os cotovelos em um balcão ou mesa de bar, pede um uísque duplo, e chora pela perda da pessoa amada.



Constantemente abandonado pelas mulheres, Lupicínio buscou em sua própria vida a inspiração para suas canções, onde a traição e o amor andavam sempre juntos.



(Neste vídeo, o próprio Lupicínio conta como surgiu a inspiração para compor "Nervos de Aço", e canta a primeira parte da música. Na seqüência, Paulinho da Viola dá continuidade durante apresentação num programa comemorativo aos 50 anos de TV no Brasil e aos 35 da Rede Globo em bloco do qual participam Hebe Camargo e Xuxa.)

Confira a letra:
Lupicínio & Paulinho da Viola: "Nervos de aço"


Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Nos braços de um tipo qualquer
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço
Que nenhum pedaço do meu pode ser
 Há pessoas com nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação
Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, despeito, amizade ou horror
Eu só sei é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor

Em 1932, quando já atuava como cantor, foi ouvido e muito elogiado por Noel Rosa, então em excursão pelo Sul com Francisco Alves. Quatro anos depois veio a primeira gravação de suas composições, pela Victor: um compacto com "Triste História" e "Pergunte a Meus Tamancos", ambas em parceria com Alcides Gonçalves, que seria também co-autor de outros sambas-canção como "Castigo", "Maria Rosa" e "Cadeira Vazia".

Um de seus maiores sucessos, "Se Acaso Você Chegasse" (com Felisberto Martins), foi gravado pela primeira vez por Cyro Monteiro, em 1938. A música ficou tão popular que Lupicínio foi para o Rio, onde conheceu Francisco Alves, que gravaria muitas de suas canções, como "Nervos de Aço" (1947) pouco tempo, a canção se tornaria um clássico de seu repertório e da própria música popular brasileira; e a magistral "Esses Moços" (1948).



De 1935 a 1947, trabalhou como bedel da Faculdade de Direito da UFRGS. Nunca saiu de Porto Alegre, a não ser por uns meses em 1939, para conhecer o ambiente musical carioca. Porto Alegre era seu berço querido e todo o seu universo.

Para o cantor Orlando Silva, Lupicínio deu, em 1947, as canções "Brasa" e "Zé Ponte". Nesse mesmo ano, Lupi obteve projeção nacional com "Felicidade", na gravação do conjunto Quitandinha Serenaders.

Em 1949, Lupicínio se casou com a gaúcha Cerenita Quevedo Azevedo. No fim da década de 1940, o compositor abriu uma churrascaria, o primeiro de uma série de bares e restaurantes com música ao vivo que ele viria a ter - uma forma de reunir o trabalho com o que ele mais amava: a boemia.

Boêmio, foi proprietário de diversos bares, churrascarias e restaurantes com música, que seguidamente ia abrindo e fechando, tudo apenas para ter, antes do lucro, um local para encontro com os amigos.
 
No início da década de 1950 sua obra ganhou uma importante intérprete: a paulista Linda Batista.
 
Torcedor do Grêmio, compôs o hino tricolor, em 1953: Até a pé nós iremos / para que der e vier / Mas o certo é que nós estaremos / com o Grêmio onde o Grêmio estiver. Seu retrato está na Galeria dos Gremistas Imortais, no salão nobre do clube.

Em 1951, ela estourou com o samba-canção "Vingança", talvez o maior sucesso do compositor. "Vingança", gravada por Linda Batista em 1951, foi outro sucesso retumbante, inspirado na amargura em que vivia uma mulher que o havia traído.

No ano seguinte, Lupicínio Rodrigues gravou seu primeiro álbum como cantor: "Roteiro de um boêmio". E, em 1959, compôs o hino oficial do Grêmio Futebol Porto-alegrense. No mesmo ano, a canção "Ela disse-me assim" inaugurou com sucesso a série de gravações que Jamelão faria das músicas de Lupi.

Num caso raro na MPB, "Se Acaso Você Chegasse" foi regravada com estrondoso sucesso em 1959 por Elza Soares e lançou a cantora no mercado.



A partir de 1971, conheceu nova fase de popularidade, quando intérpretes como Caetano Veloso, Gal Costa e Paulinho da Viola regravaram músicas suas e tomaram sua obra conhecida por um público mais jovem.


As regravações foram numerosas: Paulinho da Viola ("Nervos de Aço"), Caetano Veloso ("Felicidade"), Elis Regina ("Cadeira Vazia"), Zizi Possi ("Nunca"), Leny Andrade ("Esses Moços") e Gal Costa ("Volta") são alguns exemplos. Mas seu mais importante intérprete é Jamelão, que gravou dois discos dedicados à sua obra em 1972 e 1987, acompanhado pela Orquestra Tabajara do maestro Severino Araújo.

Lupicínio participou do V Festival de Música Popular Brasileira da TV Record em 1969 com a música "Primavera", defendida por Isaura Garcia.



Lupicínio Rodrigues faleceu em Porto Alegre/RS, em 27 de agosto de 1974, aos 59 anos, com problemas no coração. Deixou cerca de uma centena e meia de canções editadas; outras centenas que compôs foram perdidas, esquecidas ou estão à espera de quem as resgate.

De tempos em tempos, contudo, Lupicínio Rodrigues é cantado, gravado ou homenageado. Em duas dessas vezes, na década de 1980, a regravação de suas músicas alcançou grande popularidade: "Nunca", na voz de Zizi Possi, e "Loucura", com Maria Bethânia. Entre os intérpretes que fizeram releituras de canções suas na década de 1990 estão Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhoto.

Em 1995, o filho de Lupicínio, Lupicínio Rodrigues Filho, organizou o livro "Foi Assim" (Editora L&PM), com uma seleção das crônicas publicadas por seu pai no jornal "Última Hora", de Porto Alegre, em 1962 e 1963.

Na maior parte desses textos, o compositor conta a história das suas músicas: "Eu tenho sofrido muito nas mãos das mulheres, porque sou muito sentimental, mas também tenho ganhado fortunas com o que elas me fazem...", revelou ele numa das crônicas.



CURIOSIDADE

*Lupicínio Rodrigues nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em um bairro pobre da cidade, a Ilhota, no dia 16 de setembro de 1914. Chovia tanto que o córrego próximo da sua casa inundou, obrigando a parteira a chegar lá de barco. Seus pais, Francisco e Abigail, tiveram 21 filhos - e Lupicínio foi o quarto.

*Francisco era funcionário público e mandou Lupicínio para a escola logo aos cinco anos de idade. Dizem que o menino se distraía muito cantando na sala de aula e que, por essa razão, teve de parar os estudos, para retomá-los dois anos mais tarde. Enquanto cursava o primário e o ginasial (correspondentes ao atual primeiro grau), trabalhou como aprendiz de mecânico.

*Aos catorze anos, ele compôs sua primeira música, "Carnaval", para um cordão chamado Prediletos. Precocemente, já freqüentava a boemia e suas amigas inseparáveis: as bebidas e as serenatas. O pai não gostou e o obrigou a se alistar no Exército, aos quinze anos, como "voluntário".

*Em 1933, ele foi transferido para Santa Maria, cidade do interior do estado, e promovido a cabo. Lá, conheceu Iná, que se tornaria uma grande musa inspiradora de sua obra. A relação chegou ao noivado, durando cinco anos, mas acabou porque a família da moça não aceitou a vida boêmia que Lupicínio levava.

*Dizem que, para compor, Lupi não usava nem o violão. Criava de maneira peculiar, assoviando. Assim, ergueu uma obra de cerca de uma centena e meia de canções gravadas. Fazia questão de dizer que todos os casos de amor que cantou foram verdade: "A minha vida".

*Uma vez, depois de presenciar uma briga entre seu irmão (Francisco) com a esposa, pelos ciúmes exagerados que ela tinha do marido, fez o samba "Brasa", gravado pelo Orlando Silva, cuja letra dizia o seguinte:" Você parece uma brasa/Toda vez que chego em casa/Dá-se logo uma explosão/Ciúmes de mim não acredito/Pois meu bem não é com grito/Que se prende um coração..."

*Em 1939, Lupicínio foi tentar a sorte no Rio de Janeiro. Com ele foi também o seu amigo Ari Valdez, apelidado de "Tatuzinho", porque sendo analfabeto, "assinava" o nome desenhando um tatuzinho. Além de ser um cômico nato, Lupicínio achava tatuzinho um verdadeiro gênio. Ari chegou a ter um show no lendário Cassino da Urca, no Rio. Entrava no palco carregando uma enorme caixa de violoncelo, e dali tirava um minúsculo cavaquinho que executava com maestria. Um dia Tatuzinho participou da gravação de um disco de uma cantora que estava começando. Gravou o disco e se apaixonou por ela. Acabou casando, e tendo um filho com Elizeth Cardoso, a cantora em questão. Mas as coisas entre ambos não andaram muito bem, e o casamento se desfez um mês e meio depois. Tatuzinho voltou para Porto Alegre, e, segundo Lupicínio, "morreu de amor" alguns dias depois, na maior tristeza do mundo.
FONTE

Wikipédia
cliquemusic

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