terça-feira, 30 de agosto de 2011

Zé Corrêa


Zê Corrêa (1945-1974), o pioneiro do chamamé em Mato Grosso do Sul e no Brasil. Foi o criador de um estilo único de tocar acordeom, ao juntar o estilo matogrossense ao tradicional estilo correntino, já que era ouvinte de grandes músicos argentinos desde a infância.

Como Beth e Betinha já faziam, Amambay e Amambaí também cantavam em castelhano, guarani e português e misturavam canções da música paraguaia, correntina e sertaneja, algo raro dentro da indústria da música sediada em São Paulo.

O fato de muitos artistas de Mato Grosso do Sul cantar em castelhano, guarani e português  foi notado pelo paraguaio Hermínio Giménez (1905/1991), que se apresentou várias vezes no Estado. O maestro chegou a afirmar que ‘o músico sul-mato-grossense é o verdadeiro músico fronteiriço porque canta em três línguas’.

Enquanto artistas como Délio & Delinha, Amambay & Amambaí e Zé Corrêa conseguiam extrapolar as fronteiras de MS e gravar discos em São Paulo, um grande time de cantores, compositores e instrumentistas realizam um trabalho ‘silencioso’ em Campo Grande e interior do Estado durante toda a década de 60.

Vários acontecimentos artísticos, em diversas áreas, tornavam lentamente a pacata Campo Grande em uma das cidades mais ricas culturalmente do interior do Brasil, o que iria se tornar ainda mais forte na década de 70 e chegar ao pico no início dos anos 80. Jandira & Benites acabou dando os primeiros passos na direção da profissionalização da música nos bares e restaurantes de Campo Grande...

Muitas duplas, cantores e instrumentistas movimentavam o mercado e a cena musical do Sul de Mato Grosso durante toda a década de 60. Alguns inclusive com discos gravados em São Paulo, como foi o caso de Romance & Romerinho, Curioso & Barqueirinho, Baronito & Sereninho, Ivo de Souza e Florito.


Nasceu em 28 de outubro de 1945, na Fazenda Torquato, as margens do rio Urumbeva numa casa de chão batido coberta com folhas de bacuri , na região conhecida como Água Fria, que abrange os municípios de Nioaque e Maracaju,esta fazenda era propriedade de seus pais, Zeferina Corrêa Braz e Manuel Pereira Braz, ambos gaúchos vindos dos pagos missioneiros do Rio Grande do Sul, nas primeiras décadas do século XX.



Foi batizado com o nome Valfridez Corrêa Braz e registrado no cartório da municipalidade de Nioaque, porem Zé Corrêa construiu sua ligação afetiva com Maracaju, tanto pela grande presença de sua família nesta cidade, quanto pelas amizades que cultivou ali desde menino. Registrou em um de seus trabalhos fonográficos esta devoção ao lugar, gravando um chamamé de sua autoria, denominado Maracaju, cuja declamação apresentou assim: "...Maracaju tu és o meu sonho, meu berço risonho onde me criei, tu és meu tesouro, meu berço de ouro, jamais eu ti esquecerei..."

Com oito anos inciou sua aventura musical no acordeon de 80 baixos de seu irmão mais velho, desenvolvendo suas habilidades de acordeonista de maneira auto didata. Quando surgiu subitamente tocando com segurança o acordeon, causou espanto e admiração em todos na sua casa, pois em pouco tempo ja se encontrava executando com maestria os inúmeros chamamés apreciados e requisitados nas festas caseiras de seus famíliares e de amigos.

Durante a adolescência passa um período de três anos na cidade de Santos/SP, onde estudava e trabalhava, mas nunca abandonou o acordeon,e formou com dois amigos campograndenses um trio que sempre se apresentava em eventos e festividades naquela cidade, e inclusive participando nos programas da Rádio FM Guarujá com frequente regularidade, e via de regra, mostrando os chamamés que iriam torná-lo o mais representativo e popular artista deste genêro no Brasil entre as décadas de 60 e 70.

Em 1967, grava seu primeiro disco em parceria com Délio & Delinha, com o título “Gosto Tanto de Você”, na ocasião cria e executa todos os arranjos de acordeon para as doze faixas deste álbum, sendo então o primeiro acordeonista matogrossense a gravar um vinil. O LP se transforma em sucesso de venda e emplaca o hit ‘Criador de Gado Bom’, dedicado ao famoso fazendeiro Geraldo Corrêa.


Mário Vieira, diretor presidente da gravadora Califórnia se surpreendeu com o talento de Zé Corrêa, e prontamente o convidou para realizar seu primeiro disco solo, intitulado “Acordeonista Orgulho de Mato Grosso”, este Long Play passou a ser uma referência da nossa música diante do estrondoso sucesso de vendas e público por todo o velho Mato Grosso, fazendo da totalidade das músicas deste disco verdadeiros clássicos do gênero para o nosso cancioneiro popular.

Destaco neste primeiro disco, músicas como Orgulho de Mato Grosso, Triste Suspiro, Campanário, Orôite, Dom Gumercindo, Colorado Retá e a antológica gravação de Bela Vista, onde a declamação proferida por Zé Corrêa ficou popularmente conhecida até nossos dias, sendo amplamente rememorada e regravada ,e como que por mágica nos convida a bailar: “...Bela Vista terra querida pátria do laranjal, ti canto por ti querer, minha querida terra natal".


Em 1969, Zé Corrêa grava seu segundo disco solo – ‘O Ídolo de Mato Grosso’ – e chama Amambay & Amambaí para uma participação. O resultado é o sucesso estrondoso da música ‘A Matogrossense’ (Zacarias Mourão/Flor da Serra), que acaba levando a dupla a gravar disco solo pela Califórnia, nestas alturas uma espécie de ‘casa’ dos artistas sul-mato-grossenses.

A Matogrossense (Zacarias Mourão/Flor da Serra)

Fui conhecer o belo Mato Grosso
Lá encontrei o meu primeiro amor
Sinceramente o que me deixa triste
É viver longe dessa linda flor

Essa morena tem a cor de jambo
É fascinante até no olhar
Quando me lembro da
Matogrossense
Meus olhos ficam querendo chorar

Bate, bate, coração
Vai batendo sem cessar
Maltratando o peito amigo
Já cansado de esperar

Bate, bate, coração
Vai batendo sem cessar
Maltratando o peito amigo
Já cansado de esperar

Não posso esquecer, não posso
Não posso esquecer assim
Foi na sombra de um pé de cedro
Que ela jurou pra mim

Vai e volta cantando saudade
Cancioneira do meu coração
Em Coxim estarei te esperando
Para a festa da eterna união

O sanfoneiro Zé Corrêa se tornou um astro no Centro-Oeste. Uma legião de fãs e instrumentistas seguiam seu estilo de tocar. A música fronteiriça se ‘oxigena’ e os grupos e cantores que já trabalhavam com os ritmos polca, guarânia e mais do que nunca o chamamé ganham força no final da década de 60.


Impulsionados pelo grande sucesso de ‘A Matogrossense’, Amambay e Amambaí gravam com Zé Corrêa em 1969 o disco pela Califórnia em que assinam como ‘Os Mensageiros de Mato Grosso’. Este LP acaba influenciando muitas duplas a incluir a sanfona no grupo. Ou seja, muitas duplas se transformaram em trios dali para frente.

Ainda em 1969, Zé Corrêa produz seu terceiro disco solo, já com a ‘alcunha’ que iria imortalizá-lo: ‘O Rei do Chamamé’. Neste disco ele grava cinco temas de sua autoria e convida o Duo Irmãos Gonzalez para cantar cinco faixas no LP também produzido pela Califórnia.


Em toda sua carreira, gravaria 16 discos e um compacto em homenagem a Campo Grande, todos eles pela gravadora Califórnia, e sempre como artista convidado, vale destacar que os discos de Zé Corrêa foram grandes sucessos de vendagem no Mato Grosso, e também se constituiram em referência para todo o segmento musical do Estado, tornando seu inédito estilo de instrumentação ao acordeon um vôo de musicalidade revestido de uma força renovadora sem igual para a tradição musical da nossa terra

Sua técnica consistia em duetar ,ou seja , executar a sanfona com a mão direita no teclado e a mão esquerda na baixaria da todeschini super 8 e esse movimento em permanente ação , dava a impressão ao ouvinte de serem dois instrumentos em perfeita harmonia e equilíbrio tocando o chamamé.

Sua capacidade criativa influenciou várias gerações de acordeonistas que o seguiram e seguem, e tornam seu espólio musical fonte constante de estudo e referência artística máxima em termos de chamamé em nosso chão , por que Zé Corrêa foi genialmente capaz de estabelecer os contornos estéticos definitivos que refletem a maneira de sentir e tocar o nosso chamamé.


Percorreu o velho Mato Grosso em todas suas latitudes seja em festas religiosas, exposições agropecuárias, bailantas ou nas incontáveis moagens, nas serras e nos pantanais onde atuava sempre como estrela da nossa cultura.

A presença de Zé Corrêa era certeza de grandes acontecimentos, e assim foram orbitando no seu entorno novos talentos musicais , muitos dos quais foram apadrinhados pelo Rei do Chamamé e conduzidos por ele para gravar na Califórnia em São Paulo.

Os títulos artísticos recebidos por Zé Corrêa em seus discos, como o Inimitável, Ídolo de Mato Grosso, Rei do Chamamé e Acordeonista Orgulho de Matogrosso, representaram a grandiosidade de sua carreira, pois revelam que uma das maiores gravadoras do Brasil a época, tinha nesse artista verdadeiramente matogrossense uma estratégia vitoriosa de consolidação em um mercado fonográfico ainda inexplorado.


O apelo popular da musicalidade de Zé Corrêa lhe garantiu presença superlativa na programação das rádios estaduais, assim o sentimento de suas melodias embalou o romance de jovens namorados, as churrasqueadas regadas a mate amargo ou tereré, os bailes de chão batido com tiro e sapukay que ecoavam no mistério da natureza e ao mesmo tempo sua sensibilidade interpretou não só as alegrias mas também as tristezas da vida e luta de sua gente, todo esse cenário foi matizado pela poderosa sonoridade do seu acordeon que cativou corações e mentes , e que agora só poderemos alcançá-lo em suas obras que ficaram para posteridade.

Zé Corrêa partiu desta vida em 09 de abril de 1974, aos vinte e nove anos, mas seu legado perdurou e o chamamé continua pulsando no sangue de nosso povo, a cada dia surgem espontaneamente novos acordeonistas buscando seguir os passos deste grande mestre, enfeitiçados por essa magia musical que é o chamamé.

Termino com as palavras do próprio Zé Corrêa que, em um dos seus discos declamou “... ao querido povo da minha terra, dedico o chamamé como única forma de retribuir o carinho que me dispensaram e que ainda poderão me dispensar...". Em cada momento que o recordamos, contando suas histórias ,recuperando sua memória, ouvindo suas músicas o tornamos mais vivo. Sua arte musical é uma pintura onde celebramos nossas mais caras tradições. Meu profundo respeito a este gigante da cultura sul-matogrossense, Zé Corrêa Rei do Chamamé, agora te abraço em silêncio.

Por Márcio Guimarães B. Nina casado com Laurinha Corrêa, a única filha de Zé Corrêa.
Campo Grande, 27 de abril de 2011



FONTE


Um comentário:

Jardel Corrêa disse...

É IMPORTANTE RELEMBRAR OS BONS MOMENTOS DE NOSSA TERRA.
TENHO EM PARTICULAR UM AMIGO O "ROMERINHO", QUE HOJE COM 64 ANOS ESTÁ IMPOSSIBILITADO FISICAMENTE DE TOCAR E CANTAR.